MARIDO – É aqui?
ESPOSA – A Izildinha disse que a pousada era rústica, mas isso aqui está me parecendo uma espelunca.
GERENTE – Ah sim, é porque estamos passando por pequenas reformas.
ESPOSA – Pequenas... isso aqui vai ter muito o que reformar, a Izildinha me paga!
MARIDO (Cutucando a esposa) – Querida! (Para a gerente) Muito obrigado, qualquer coisa chamamos a senhora.
GERENTE – Qualquer coisa estou às ordens. (Estende a mão para pedir gorjeta, fica parada por alguns instantes. O marido somente lhe dá um aperto de mão.)
MARIDO – Obrigado.
GERENTE (Irritada) – Avareza é pecado. (Sai resmungando)
ESPOSA (Irritada) – A Izildinha é mesmo uma ordinária! Ela me paga!
MARIDO – Que é isso querida? De repente ela se enganou.
ESPOSA – Como você é ingênuo! Ela fez isso pra zombar de mim, ela sempre competiu comigo, desde os tempos de colégio. Vivia dando em cima de você, lembra? Bem que eu te disse que a gente não podia confiar naquela mulherzinha! Agora estamos nesta espelunca e ainda por cima está caindo o maior temporal lá fora!
MARIDO – Relaxa querida, vamos aproveitar o nosso fim de semana da melhor forma possível, afinal conseguimos deixar as crianças com a tua mãe pra darmos um passeio. Tudo bem que está chovendo, que este lugar é um fim de mundo e que a pousada é horrível, mas vamos tentar nos divertir. Aliás um banho de mar com chuva é muito gostoso, a água fica quentinha.
ESPOSA – Tem razão, só espero que não aconteça mais nada. (Falta luz)
MARIDO – Droga, faltou luz.
ESPOSA – Não é possível, a gente cansa de trabalhar debaixo de um dia lindo e quando temos uma folguinha, acontece tudo isso!
MARIDO – Calma querida, vamos chamar a gerente pra ver o que está acontecendo e depois vamos pegar nossos guarda-chuvas e dar um passeio na praia. (Batem na porta, o marido abre a porta. É a gerente.) Puxa, precisava mesmo falar com a senhora. A senhora tem previsão de quando a luz vai voltar?
GERENTE – Daqui a uns três dias?
ESPOSA – O quê?
GERENTE – A Light demora muito a vir aqui, principalmente porque tivemos alguns probleminhas.
MARIDO – Calma querida, então vamos dar um passeio na praia.
GERENTE – Só não entrem na água.
ESPOSA – Ué! Por quê?
GERENTE – Por isso que eu vim aqui, estamos avisando a todos os hóspedes. Estourou o emissário submarino e a praia está imprópria pro banho.
MARIDO – Mas no Rio também tem muitas praias impróprias pro banho.
GERENTE – Quando vocês verem o estado da água, rapidinho vão desistir de entrar.
ESPOSA – Como assim?
GERENTE – Vocês conhecem a praia de Ramos lá no Rio? (Os dois fazem que sim com a cabeça.) Pois é, a água da praia de Ramos perto dessa aqui é cristalina.
ESPOSA – Ai meu Deus!
GERENTE – Com licença. Qualquer coisa é só me chamar.
MARIDO – A senhora nos traz uma porção de camarão? Me disseram que o camarão daqui é uma delícia. (A gerente faz que sim com a cabeça e sai) Agora só nos resta curtir momentos a sós aqui no quarto sem as crianças por perto. Coloca aquela roupinha especial que você trouxe.
ESPOSA (Empolgada) É pra já. Já volto! (Vai ao banheiro, demora uns instantes e solta um grito)
MARIDO – O que foi querida?
ESPOSA – Querido, aconteceu uma tragédia, uma desgraça! A minha menstruação veio!
MARIDO – Mas você não disse que viria só na semana que vem?
ESPOSA – Pois é, mas veio antes!
MARIDO (abraça a esposa) – Calma querida, calma. (Batem na porta. O marido atende, é a gerente com a porção de camarão) Muito obrigado. (A esposa começa a dar tapa no corpo e no ar)
ESPOSA – Isso aqui está cheio de mosquitos.
GERENTE – Aqui quando chove e falta luz é assim mesmo.
MARIDO – O pior é que a gente não trouxe repelente!
ESPOSA – Querido, vamos embora?
GERENTE – Isso não vai ser possível. Caiu uma barreira na estrada. Eles vão esperar melhorar o tempo pra removerem. Com licença (Sai)
ESPOSA (Abraçando o marido) – Não é possível!
MARIDO – Querida, relaxa . vamos comer o camarão, parece estar uma delícia. (Começa a comer) Está muito gostoso. Experimenta querida.
ESPOSA – Estou sem fome.
MARIDO – Que pena, está uma delícia. (Come o camarão e coloca a mão na barriga) Acho que está me dando dor de barriga! Ai não vai dar tempo. (Corre para o banheiro. Batem na porta, a esposa atende. É a gerente)
ESPOSA – Pois não.
GERENTE – Só vim avisar que devido ao mau tempo, tivemos um problema hidráulico, por isso estamos pedindo aos hóspedes que não usem o vaso sanitário, qualquer coisa vão no banheiro coletivo. Mesmo porque estamos isolados e não conseguimos comprar material de limpeza para limpar o banheiro e os vasos sanitários.
ESPOSA – Ah não! (Começa a chorar e abraça a gerente.)
GERENTE – Calma, calma, passou. Aliás, que mau cheiro é esse?
(A esposa cai em prantos)
(Jorge Eduardo Magalhães)
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