quinta-feira, 7 de maio de 2015

ARTIGO - AQUELAS QUE NÃO FORAM (O desfecho não-amoroso de uma personagem querosiana e duas machadianas)


Aquelas que não foram
(O desfecho não-amoroso de uma personagem querosiana e duas machadianas)

Por:

Jorge Eduardo Magalhães 


RESUMO:
Este trabalho tem como objetivo a abordagem da de personagens femininas das obras O primo Basílio, de Eça de Queirós; Memórias póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, ambas de Machado de Assis. Nas três obras será abordada um tema em comum, o sonho não-realizado de um casamento e, sob ângulos diferentes, a consequente frustração.


ABSTRACT:

This work aims to approach the female characters of the works Cousin Basilio , by Eça de Queiros ; Posthumous Memoirs of Bras Cubas and Quincas Borba , both by Machado de Assis. In all three works will be addressed a common theme , unrealized dream of a wedding and from different angles, the resulting frustration. 
I – Introdução

Tanto Machado de Assis quanto Eça de Queirós falam muito através das personagens secundárias de suas respectivas obras, ou seja, quando compõem personagens com poucos traços não querem dizer que sejam simplesmente tipos, são personagens com vida.
Na obra desses dois autores podemos perceber que essas várias personagens têm as suas funções e seus significados, mas são as figuras femininas que terão maior destaque nesta pesquisa. Poderíamos falar de adúlteras como Virgília de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Luísa de O primo Basílio; interesseiras como Marcela, também de Memórias póstumas, e Adélia de A relíquia;  supostas adúlteras como Capitu de Dom Casmurro; adúlteras em potencial como Sofia de Quincas Borba, que só não traiu o marido porque o belo Carlos Maria não foi ao seu encontro marcado. Ainda temos personagens que simbolizam a influência da religião na vida pessoal como é o caso de dona Glória de Dom casmurro que coloca o filho Bentinho, contra a vontade dele, em um seminário e dona Patrocínio de A relíquia que quer de qualquer modo, a todo custo, que seu sobrinho Teodorico Raposo se mantenha casto, a condição principal para que este seja o seu herdeiro.
O título Aquelas que não foram se dá, justamente, devido ao fato das personagens estudadas poderem ter tido um destino diferente, ou seja, um desfecho amoroso de três personagens dos autores estudados, sendo uma de Eça de Queirós e duas de Machado de Assis: dona Felicidade de O primo Basílio, de Eça de Queirós, Eugênia, de Memórias Póstumas de Brás Cubas e dona Tonica de Quincas Borba, estas duas últimas de Machado de Assis.
Serão abordados e destacados alguns aspectos e características dessas três personagens dentro das respectivas obras.
A ordem dos capítulos foi colocada pela ordem cronológica da publicação dos três romances, porém, poderíamos falar respectivamente de dona Felicidade e dona Tonica, pois estas têm em comum a ansiedade quanto a conseguir um casamento, o que as diferencia é que a primeira escolheu o conselheiro Acácio, ama-o de verdade.



II – Dona Felicidade: a paixão pelo conselheiro


Publicado em 1878, o romance O primo Basílio de Eça de Queirós tem como foco central os encontros amorosos de Luísa e Basílio, seu primo e namorado no passado, quando Jorge, o seu marido, viaja a trabalho ao Alentejo e a consequente chantagem de Juliana, a empregada de Luísa, ao interceptar uma carta de amor entre os amantes. Tal chantagem faz Luísa adoecer lentamente o que a leva à morte.
Eça fez uma literatura de combate e questionou toda a literatura que não tinha este mesmo propósito criticando os escritores românticos poupando apenas Almeida Garrett. Tendo como subtítulo “Episódio doméstico”, O primo Basílio critica justamente os hábitos da burguesia portuguesa com suas obviedades e tradicionalismos monárquicos e clericais.
Vejamos esta afirmação de Carlos Reis:

O primo Basílio corresponde de facto, ao fundamental da doutrinação naturalista, interiorizada por um Eça então consciente das responsabilidades sociais da arte; nele representa-se uma intriga de adultério, juntando-lhes ainda a atmosfera morna e medíocre da Lisboa de regeneração que tem na monotonia dos serões familiares e no Passeio Público os seus únicos divertimentos.[1]


Dentro do vai e vem da trama, várias personagens secundárias, amigas de Jorge e Luísa circulam pelo romance e frequentam a casa do casal como Sebastião, velho amigo de Jorge; Julião Zuzarte, primo de Jorge, um médico pobre e sem nomeação; Leopoldina, uma antiga colega dos tempos de colégio, mais conhecida por “Pão de queijo” porque passa de boca em boca pelo fato de trair o marido abertamente e por isso, sua amizade não é aprovada por Jorge. Temos ainda o conselheiro Acácio, um antigo amigo do pai de Jorge, que aparentemente para um leitor mais desatento, um homem óbvio e formal, típico do século dezenove. O conselheiro Acácio, [2], e dona Felicidade, nosso objeto de estudo, uma cinquentona amiga de Luísa que é completamente apaixonada pelo conselheiro, que sofre de crises gasosas.
Observemos esta descrição que o narrador querosiano faz de dona Felicidade:

Às nove horas, ordinariamente, entrava D. Felicidade de Noronha. Vinha logo da porta com os braços estendidos, o seu bom sorriso dilatado. Tinha cinqüenta anos, era muito nutrida, e, como sofria de dispepsia e de gases, àquela hora não se podia espartilhar e as suas formas transbordavam. Já se viam alguns fios brancos nos seus cabelos levemente anelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, de uma alvura baça e mole de freira; nos olhos papudos, com a pele já engelhada em redor, luzia uma pupila negra e úmida, muito móbil; e aos cantos da boca uns pêlos de buço pareciam traços leves e circunflexos de uma pena muito fina. Fora a íntima amiga da mãe de Luísa, e tomara aquele hábito de vir ver a pequena aos domingos. Era fidalga, dos Noronhas de Redondela, bastante aparentada em Lisboa, um pouco devota, muito da Encarnação.[3]

                                                                                  
Dentre estas várias personagens que transitam na trama de paixão e adultério, no triângulo amoroso, representado por Jorge, Luísa e Basílio, dona felicidade representa esse resquício do Cristianismo beato e retrógado que ainda resistia em Portugal na segunda metade do século dezenove.
O conselheiro Acácio tem uma visão equilibrada dos homens daquela época, vivendo como podia aquela sociedade do século dezenove. Vive como pode a sociedade daquela época. Acácio era um democrata e regenerador, pois tem na sala de sua casa o busto de Rodrigo da Fonseca Magalhães, um dos mais importantes políticos liberais portugueses e maior figura do movimento da Regeneração.
O conselheiro Acácio era um monarquista e democrata ao mesmo tempo, era religioso, mas não fanático, queria uma igreja regenerada.
Muitos leitores desatentos veem Acácio como um parvo, um homem superficial, mas sua aparente superficialidade era típica dos homens da época. Sabia representar na sociedade e guardar na vida privada o que era de tal esfera. 
Acácio mostra-se austero, no entanto, era amante de sua empregada, mas dizia que tinha “apagado o fogo das paixões”, tem escondido um livro de Bocage, sua cama era sempre arrumada com duas fronhas, provavelmente para a empregada também se deitar. Não podemos ser leitores anacrônicos e chamá-lo de hipócrita, pois o seu comportamento pomposo era típico da sociedade da época e quando dizia sobre “seu apagado fogo das paixões” era porque era esta a resposta que se esperava de um senhor distinto.
A paixão de dona Felicidade pelo Conselheiro se dá não pelo que ele exatamente é, mas pelo que aparenta ser. Na verdade visualiza em Acácio a figura de um homem ideal na visão das mulheres do século dezenove, um homem formal e polido.
O seguinte trecho de O primo Basílio mostra quando o narrador fala sobre a paixão de dona Felicidade:

Havia cinco anos que D. Felicidade o amava. Em casa de Jorge riam-se um pouco com aquela chama. Luísa dizia: "Ora! E uma caturrice dela!" Viam-na corada e nutrida, e não suspeitavam que aquele sentimento concentrado, irritado semanalmente, queimando em silêncio, a ia devastando como uma doença e desmoralizando como um vício.[4]


Mesmo tardiamente, dona Felicidade quer se casar e cumprir mais esta “exigência” da sociedade, cujo escolhido é o conselheiro. Este, porém, não é só um mero instrumento de uma convenção social, dona Felicidade realmente o ama. Seria esta uma crítica de Eça ao ultrapassado Romantismo? Ao amor idealizado?
O conselheiro, por sua vez, com sua forma tolhida, não esboça nenhum interesse em relação à dona Felicidade.
No capítulo onze quando Dona Felicidade dá oito moedas para que enfeiticem o Conselheiro Acácio, fazendo-o apaixonar-se por ela, não adivinha que o Conselheiro vive amasiado com a própria empregada.
A seguir, uma cena de O primo Basílio onde o narrador descreve a personalidade austera e os ideais do Liberalismo do conselheiro Acácio, ao mesmo tempo em que mostra certa inquietude de dona Felicidade em relação à criada do seu amado:

Falaram de criados, das suas exigências. Estavam cada vez mais atrevidos! E em se lhes dando confiança! E que imoralidade!...
- Muitas vezes é culpa das amas - disse D. Felicidade. - Fazem das criadas confidentes, e isto,
em elas apanhando um segredo, tornam-se as donas da casa...
As mãos trêmulas de Luísa faziam-lhe tilintar a chávena. Disse, com uma voz afetadamente risonha:
- E o Conselheiro, que tal de criados?
Acácio tossiu:
- Bem. Tenho uma pessoa respeitável, com bom paladar, muito escrupulosa em contas...
- E que não é feia - acudiu Julião. - Assim me pareceu uma vez que fui à Rua do Ferregial...
Uma vermelhidão espalhara-se pela calva do Conselheiro. D. Felicidade fitava-o ansiosamente,
com a pupila chamejante. Acácio, então, disse com severidade:
- Nunca reparo para a fisionomia dos subalternos, Sr. Zuzarte.
Julião ergueu-se e enterrando as mãos nos bolsos, jovialmente:
- Foi um grande erro abolir a escravatura!...
- E o princípio da liberdade? - acudiu logo o Conselheiro. - E o Princípio da liberdade? Que os
pretos eram grandes cozinheiros, concordo... Mas a liberdade é um bem maior.
Alargou-se então em considerações: fulminou os horrores do tráfico, lançou suspeitas sobre a
filantropia dos ingleses, foi severo com os plantadores da Nova Orleans, contou o caso da
Charles et Georges: dirigia-se exclusivamente a Julião, que fumava, cabisbaixo.
D. Felicidade fora-se sentar ao pé de Luísa e muito inquieta, falando-lhe ao ouvido:
- Tu conheces a criada do Conselheiro?
- Não.
- Será bonita?
Luísa encolheu os ombros.
- Não sei que me diz o coração, Luísa! Estou a abafar!
E enquanto Acácio, de pé, perorava para Julião, D. Felicidade ia murmurando a Luísa as queixas da sua paixão.[5]


Como podemos observar, nessa roda viva, no meio da angústia de Luísa, Acácio mostra um jeito formal e austero, típico do século dezenove. Embora durma com a empregada, não perde a formalidade e o discurso superior em relação aos subalternos, ao mesmo tempo que se diz radicalmente contra a escravidão quando interpela o discurso de Julião, certamente para provocar o conselheiro, enquanto isso, dona Felicidade suspira apaixonada e sente ciúmes da criada perguntando a Luísa se esta é bonita.
No final do romance, após o enterro de Luísa, Jorge despede as criadas e vai para a casa de Sebastião. Dona Felicidade descobre que o Conselheiro Acácio era amante de Adelaide, empregada dele e, decepcionada, entra para um convento. 
Dona Felicidade realmente amava o conselheiro Acácio, poderia ter se casado com ele e ser uma boa esposa. Poderiam ter sido felizes, mas não foi. Seu destino foi uma das poucas opções que restavam às mulheres que não conseguiam um casamento: a vida religiosa.
Enquanto isso, Basílio e seu amigo Reinaldo foram tomar xerez na Taverna Inglesa.
Dona Felicidade, assim como Acácio, Sebastião, Ernestinho Ledesma, entre outros, numa primeira leitura, podem nos parecer meros coadjuvantes, mas têm importância fundamental em O primo Basílio. Podemos afirmar que dona Felicidade representa a monotonia da segunda metade do século dezenove e segundo o próprio Eça, significa a beatice parva e excitada.

III – O destino da flor da moita

No capítulo doze de Memórias Póstumas de Brás Cubas intitulado “Um episódio de 1814”, o defunto-autor, como se denomina o próprio narrador-personagem logo no primeiro capítulo. Neste episódio do ano de 1814 quando tinha apenas nove anos e seu pai reunia seus convivas para celebrar a queda de Napoleão, Brás, numa espécie de vingança por ninguém ter lhe dado a sobremesa, resolveu seguir o doutor Vilaça, um dos convidados e o viu atrás de uma moita a conversar com dona Eusébia, a irmã do sargento-mor Domingues. Brás saiu correndo pela chácara gritando o que viu para todos, o que causou um grande embaraço, afinal de contas Vilaça era um homem casado.
Vejamos esta passagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas:


- O Doutor Vilaça deu um beijo em Dona Eusébia! Bradei.
Eu correndo pela chácara. Foi um estouro esta minha palavra; a estupefação imobilizou a todos; os olhos espraiavam-se a uma e outra banda; trocavam-se sorrisos, segredos, à socapa, as mães arrastavam as filhas, pretextando o sereno. Meu pai puxou-me as orelhas, disfarçadamente, irritado deveras com a indiscrição; mas, no dia seguinte, ao almoço, lembrando o caso, sacudiu-me o nariz, a rir: Ah! brejeiro! ah! brejeiro![6]


Como podemos perceber, a peraltice de Brás causa um enorme mal estar, mas no dia seguinte seu pai acha graça da travessura.
A narrativa dá um salto no tempo, Brás se envolve com a espanhola, Marcela, e seu pai o manda estudar leis na Universidade de Coimbra. Anos depois, após divertir-se muito no velho continente, retorna da Europa, já formado, para rever sua mãe que estava muito enferma. Não chega a tempo para ver a mãe com vida.
A morte de sua mãe lhe faz reviver o antigo episódio de 1814, pois o Prudêncio, o moleque que na infância de Brás era o seu cavalo, pergunta-lhe se não iria visitar dona Eusébia, afinal,  [7].
Brás decide visitá-la em sua chácara da Tijuca que ficava perto de onde ele se encontrava.
No capítulo trinta, intitulado “A flor da moita”, ao visitar dona Eusébia conhece Eugênia, que supostamente seria também filha do Vilaça devido ao episódio de 1814, e imediatamente foram apresentados.
Assim Brás Cubas descreve o seu primeiro contado com Eugênia:

Eugênia, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortesia que lhe fiz; olhou-me admirada e acanhada, e lentamente se aproximou da cadeira da mãe. A mãe arranjou-lhe uma das tranças do cabelo, cuja ponta se desmanchara.
- Ah! travessa! dizia. Não imagina, doutor, o que isto é... E beijou-a com tão expansiva ternura que me comoveu um pouco; lembrou-me minha mãe, e - direi tudo, - tive umas cócegas de ser pai.[8]



Brás Cubas a chama pejorativamente de “flor da moita” justamente devido ao episódio de sua infância em1814 quando viu dona Eusébia e o doutor Vilaça se beijando atrás da moita e conclui maliciosamente que Eugênia foi concebida ali mesmo naquele local.
Ainda neste capítulo percebemos o orgulho e dignidade de Eugênia e o primeiro incômodo de Brás a seu respeito quando esta passa de cavalo por ele, orgulhoso, tem certeza que ela olhará para trás, mas não o faz.
Algo mexe com Brás, sua soberba? Seu orgulho? Talvez. Sente-se também incomodado ao descobrir que Eugênia é coxa de nascença, ao cometer a gafe de perguntar se ela havia machucado o pé. Pergunta a si mesmo o porquê de ser bonita se é coxa e vice-versa.
Brás atende ao pedido de Eugênia para que ele não desça e ele permanece na chácara por mais algum tempo como fica bem claro no capítulo trinta e três, “Bem aventurados os que não descem”.
Observemos este trecho do capítulo:

Não desci, e acrescentei um versículo ao Evangelho:
-Bem-aventurados os que não descem, porque deles é o primeiro beijo das damas. Com efeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eugênia, - o primeiro que nenhum outro varão jamais lhe tomara, e não furtado ou arrebatado, mas candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma dívida. Pobre Eugênia! Se tu soubesses que idéias me vagavam pela mente fora naquela ocasião! Tu, trêmula de comoção, com os braços nos meus ombros, a contemplar em mim o teu bem-vindo esposo, e eu com os olhos em 1814, na moita, no Vilaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, à tua origem...[9]


Percebemos que o narrador-personagem se posiciona como se estivesse fazendo um favor por beijá-la e faz um julgamento de seu caráter afirmando que ela já o via como um futuro esposo num casamento com um bom partido e atribui tal fato à sua origem.
Na segunda-feira Brás anuncia sua partida e diz lhe querer muito bem, discurso este que ela não acredita e diz que [10]. O próprio Brás confessa ao leitor que suas palavras a Eugênia não passam de hipérboles frias.
Dentro do contexto social da sociedade do século dezenove podemos chegar à conclusão que realmente Eugênia podia ter pensado num possível casamento com Brás, afinal de contas, um beijo naquela sociedade era praticamente sinônimo de um compromisso, não por interesse, mas sim por realmente ter gostado dele.
Lembremos que Eugênia, ao lado de dona Fernanda de Quincas Borba é uma das poucas personagens machadianas que têm dignidade. Os poucos capítulos em que aparece, Eugênia demonstra seu caráter e seu orgulho, afinal, não se rebaixa diante dos ricos. Fato este que provavelmente incomodou Brás Cubas.
Vejamos o comentário de Benício Medeiros a respeito do perfil de Eugênia:

Os ricos não são bons, os pobres também não, e a única personagem direita da história, Eugênia, acaba pedindo esmolas num cortiço. Além disso, apesar de ser boa, é coxa de nascença, - defeito exibido exaustivamente pelo escritor.[11]


O perfil e o histórico de Eugênia são conduzidos de acordo com a pressuposição do narrador-personagem. Temos certeza de que ela é filha de dona Eusébia, que é coxa e que acaba em um cortiço. Não temos certeza de que realmente seja filha do Vilaça, isso quem diz é Brás Cubas e as especulações de seu tio João e da vizinhança a respeito do legado que deixou para dona Eusébia antes de morrer e os rumores do nascimento de uma menina.
Acreditamos, existe uma grande possibilidade, mas não temos certeza absoluta, afinal, segundo o próprio Brás diz que seu tio João era “guloso em escândalos”, o famoso sujeito indeterminado, disseram-me, falaram-me.
Segundo José Luís Jobim:

Talvez nas Memórias Póstumas já não seja mais possível postular como falta a ausência do que nunca se pretendeu, que lá estivesse, porque o romancista em vez de supor um leitor que reconstituiria tudo o que o escritor configurou exaustivamente na obra, preferiu supor um leitor que ativamente preencheria os espaços vazios deixados no texto, para a atividade constitutiva da leitura.[12]

Eugênia é uma das personagens mais intrigantes da obra de Machado, justamente, por não sabermos muito sobre ela. O leitor fica intrigado e curioso quanto à sua trajetória. Seria realmente ela filha do Vilaça? O leitor, conduzido pela narrativa nas lacunas que ficaram vazias.
Publicado em 1881, Memórias póstumas de Brás Cubas, utiliza um narrador-personagem que já está morto, ou seja, um defunto-autor, como o próprio Brás Cubas se denomina. Este recurso é usado para que o narrador se dispa de toda hipocrisia e retrate a sua verdadeira personalidade, inclusive assume a sua mediocridade.
Em vida, Brás Cubas vivia num mundo de superficialidades onde, apesar de ter se formado, não levou a sério os estudos, usava frases feitas para impressionar com sua retórica e, principalmente, fazia caridade para autopromoção.
No capítulo cento e cinquenta e oito que marca o reencontro de Brás e Eugênia anos depois quando este fazia caridade num cortiço e encontra Eugênia vivendo naquela miséria, traça um rápido perfil destas duas personagens.
Leia-se um trecho deste capítulo:

No fim de alguns anos, três ou quatro, estava enfarado do ofício e deixei-o, não sem um donativo importante, que me deu direito ao retrato na sacristia. Não acabarei, porém, o capítulo, sem dizer que vi morrer no hospital da Ordem, adivinhem quem?... a linda Marcela; e via-a morrer no mesmo dia em que, visitando um cortiço, para distribuir esmolas, achei... Agora é que não são capazes de adivinhar.., achei a flor da moita, Eugênia, a filha de Dona Eusébia e do Vilaça, tão coxa como a deixara, e ainda mais triste. Esta, ao reconhecer-me, ficou pálida, e baixou os olhos; mas foi obra de um instante. Ergueu logo a cabeça, e fitou-me com muita dignidade. Compreendi que não receberia esmolas da minha algibeira, e estendi-lhe a mão, como faria à esposa de um capitalista. Cortejou-me e fechou-se no cubículo. Nunca mais a vi; não soube nada da vida dela, nem se a mãe era morta, nem que desastre a trouxera a tamanha miséria. Sei que continuava coxa e triste. (...)[13]


Neste trecho percebemos um rápido perfil de Brás Cubas onde ele procura a glória e o sucesso, dava donativos para ter seu retrato na sacristia da igreja, dava esmolas em um cortiço para pousar de caridoso. Quanto à Eugênia, seu orgulho e sua dignidade foram provados quando, mesmo um pouco constrangida, cumprimentou Brás Cubas e não aceitou sua esmola.
Segundo Roberto Schwarz, no caso de Brás Cubas, [14].
Como já foi dito anteriormente, conhecemos mais Eugênia através da visão de Brás Cubas, mas uma das poucas coisas que podemos ter certeza é que ela tem dignidade e até hoje temos a mesma dúvida de Brás Cubas: O que a trouxe a tamanha miséria?

IV – Dona Tonica: o casamento como objetivo de vida

Na conservadora sociedade do século dezenove cabia à mulher somente três destinos: casar-se, ir para um convento ou cuidar dos pais ou dos sobrinhos. Em Quincas Borba temos dona Tonica, uma mulher de trinta e nove anos que ainda não se casou e vive com seu pai.
Publicado em 1891, o romance gira em torno de Rubião, que ao se tornar o herdeiro universal do filósofo Quincas Borba sob a condição de cuidar de seu cachorro, que também se chama Quincas Borba, Rubião parte para o Rio de Janeiro. Na viagem conhece o capitalista Cristiano Palha e sua esposa Sofia e logo se apaixona por ela. Rubião passa a frequentar a casa do casal. Ingenuamente, Rubião se deixa levar pelo casal que usa Sofia como chamariz para subtrair aos poucos seu dinheiro.
Dona Tonica é apresentada ao leitor no capítulo trinta e quatro na casa do casal Sofia e Cristiano Palha em Santa Teresa. Dona Tonica, logo ao conhecer Rubião, o vê como um possível marido.
Observemos esta breve descrição que o narrador faz da cena em que Rubião é apresentado para dona Tonica:

Rubião caiu em si; mas não teve tempo de emendar a mão. Diante dele, ao pé da casa, estavam sentadas em bancos de ferro umas quatro senhoras, caladas, olhando para ele, curiosas; eram visitas de Sofia que esperavam a vinda de um capitalista, Rubião. Sofia foi apresentá-lo a elas. Três delas eram casadas, uma solteira, ou mais que solteira. Contava trinta e nove anos, e uns olhos pretos, cansados de esperar. Era filha de um major Siqueira, que daí a alguns minutos apareceu no jardim.[15]


Como podemos perceber o narrador em terceira pessoa destaca uma forte característica em dona Tonica: estar cansada de esperar. Aos trinta e nove anos dona Tonica ainda esperava um casamento, o objetivo máximo que uma mulher poderia alcançar no século dezenove.
Rubião logo vira cobiça, objeto de desejo de dona Tonica, pensa na possibilidade de virem a se casar, mas Rubião não percebe tal interesse da filha do major Siqueira, pois para ele, Sofia é absoluta.
O narrador onisciente penetra no pensamento, no íntimo das personagens, inclusive dona Tonica. A filha do major Siqueira faz de tudo para chamar a atenção de Rubião, mas vê um empecilho que pode atrapalhar seus objetivos: percebe que Rubião só tem olhos para Sofia.
Dona Tonica vê Sofia como uma ameaça, chega a sentir raiva dela, de querer se vingar, como podemos perceber neste trecho do capítulo quarenta e três:

Chegaram à casa na Rua do Senado; o pai foi dormir, a filha não se deitou logo, deixou-se estar em uma cadeirinha, ao pé da cômoda, onde tinha uma imagem da Virgem. Não trazia idéias de paz nem de candura. Sem conhecer o amor, tinha notícia do adultério, e a pessoa de Sofia pareceu-lhe hedionda. Via nela agora um monstro, metade gente, metade cobra, e sentiu que a aborrecia, que era capaz de vingar-se exemplarmente, de dizer tudo ao marido.[16]


Não podemos achar que o motivo da revolta de dona Tonica fosse de ordem moral, ou então, que estivesse apaixonada por Rubião. Na verdade Rubião representava para ela a realização de uma convenção social: o casamento. Sofia poderia vir a acabar com essa possibilidade, com essa chance de dona Tonica finalmente poder se casar. O motivo do seu ódio também se deu devido ao fato de Sofia ser casada e afastar um suposto pretendente de uma mulher madura e ainda solteira.
O que interessa são as aparências, as convenções sociais e o casamento é uma dessas convenções, principalmente para a mulher.
Kátia Muricy destaca nos romances da maturidade de Machado, uma natureza humana .[17]
O casamento com Rubião representa para dona Tonica um lucro. Não por ela ser uma golpista, por uma questão financeira, mas por uma questão de status social representado pelo casamento.
Dona Tonica poderia ter se casado com Rubião e ter sido feliz, poderia até ser boa esposa, mas a intenção do narrador machadiano não é de finais felizes, de uma sociedade idealizada e sim retratar a sociedade burguesa do século dezenove com uma visão irônica e dura.
No capítulo setenta e oito quando dona Tonica completa seus quarenta anos, percebemos o seu desânimo, a sua angústia de estar completando mais um ano de vida ainda solteira:

A filha estava ainda qual a deixamos no capítulo XLIII, com a diferença que os quarenta anos vieram. Quarentona, solteirona. Gemeu-os consigo, logo de manhã, no dia em que os completou; não pôs fita nem rosa no cabelo. Nenhuma festa; tão-somente um discurso do pai, ao almoço, lembrando-lhe a vida de criança, anedotas da mãe e da avó, um dominó de baile de máscaras, um batizado de 1848, a solitária de um coronel Clodomiro, várias coisas assim de mistura, para entreter as horas. Dona Tonica mal podia ouvi-lo; metida em si mesma, ia roendo o pão da solitude moral, ao passo que se arrependia dos últimos esforços empregados na busca de um marido. Quarenta anos; era tempo de parar.[18]




Os quarenta anos não é um motivo de comemoração, de felicidade para dona Tonica, mas sim de desespero pelo fato da idade estar avançando e ainda não ter arranjado um marido. O pai e os convivas nada falam, porém, dona Tonica se sente mal por ainda não ter alcançado o status social através do casamento. Provavelmente seja um silêncio cruel.
No decorrer do romance, o narrador vai descrevendo toda a perda da fortuna de Rubião para seu sócio Cristiano Palha e o seu consequente processo de enlouquecimento.
Cristiano Palha vai prosperando à medida que a fortuna de Rubião vai sendo dizimada. Palha e Sofia vão se afastando do major Siqueira e de dona Tonica que agora vivem num modesto sobrado na Rua dos Barbonos. O major percebe com mágoa este distanciamento.
No capítulo cento e oitenta, quando Rubião já estava completamente enlouquecido e arruinado, depois de visitar o Camacho e ser tratado friamente, encontra o major Siqueira que o leva à sua casa já nos Cajueiros, onde está morando com a filha. Percebe que dona Tonica está diferente, feliz, está noiva. O narrador machadiano, sempre implacável faz ao leitor uma descrição grotesca de Rodrigues, o noivo de dona Tonica, quando esta lhe mostra o retrato:

Dona Tonica recebeu o retrato e fitou-o alguns instantes; mas, tirou logo os olhos, e deixou-se estar sentada, enquanto a imaginação saiu a esperar o noivo. Chamava-se Rodrigues. Era mais baixo que ela, coisa que o retrato não dava, — e empregado em uma repartição do ministério da guerra. Viúvo, com dois filhos, um que estava no batalhão dos menores, outro que era tuberculoso, — doze anos, —condenado à morte. Que importa? Era o noivo; todas as noites, ao recolher-se, Dona Tonica ajoelhava-se ante a imagem de Nossa Senhora, sua madrinha, agradecia-lhe o favor e pedia-lhe que a fizesse feliz. Sonhava já com um filho; havia de chamar-lhe Álvaro.[19]




Rodrigues, o noivo de dona Tonica, não era rico e estava longe de ser um homem bonito, porém, estava lhe dando a oportunidade de um casamento e, finalmente o seu pai “se livrar do trambolho”.
O narrador descreve o dissabor e a frustração de dona Tonica no capítulo cento e noventa e dois quando o noivo de dona Tonica morre três dias antes do casamento, condenando-lhe ao cruel destino para uma mulher do século dezenove de continuar solteira já na idade madura.
Segundo Marta de Senna [20] Pobre dona Tonica, a pretendente a esposa de Rubião e viúva antes mesmo de seu casamento.

V – Conclusão

As três personagens estudadas são riquíssimas quanto ao conteúdo. Abordam um dos aspectos da condição da mulher no século dezenove.
A ordem dos capítulos foi colocada pela ordem cronológica da publicação dos três romances, porém, poderíamos falar respectivamente de dona Felicidade e dona Tonica, pois estas têm em comum a ansiedade quanto conseguir um casamento na idade madura, tendo como diferença que a primeira escolheu o conselheiro Acácio, ama-o de verdade e quando vê que não vai conquistar seu grande amor, vai para um convento, enquanto dona Tonica, só quer conseguir um marido.
No início do romance dona Tonica se interessa por Rubião, imagina a hipótese de se casar com ele, mas na verdade, ao contrário de dona Felicidade, não é apaixonada, quer apenas um marido para ser aceita na sociedade, tanto que quando completa quarenta anos, sente não por perceber que não vai se casar com Rubião e somente porque ainda está solteira. quase consegue casar, porém, para seu infortúnio, Rodrigues, seu noivo, morre três dias antes do casamento.
Eugênia, ao contrário das outras duas, não sabemos se casou, enviuvou, mesmo porque o romance em que é personagem é o único narrado em primeira pessoa onde o narrador se distancia por um longo tempo e a encontra anos depois. Temos somente certeza que era filha de dona Eusébia, beijou Brás Cubas e acabou num cortiço, mesmo assim não perdeu sua dignidade.
Em O primo Basílio e Quincas Borba conhecemos mais detalhadamente o perfil das personagens porque é permitido ao narrador onisciente penetrar mais nas personagens e descrever com maior riqueza de detalhes o perfil psicológico, os pensamentos e as ansiedades destas.
As três têm em comum um final não-amoroso. Dona Felicidade poderia ter sido a esposa do conselheiro Acácio, Eugênia não se casou com Brás Cubas, não sabemos se chegou a casar com alguém, mas, apesar de ser uma das poucas personagens machadianas com dignidade, acabou num cortiço miserável e dona Tonica ficou viúva antes de casar.

Bibliografia:

1. ASSIS, Machado. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Rovelle, 2008.
______________. Quincas Borba. São Paulo: Klick Editora, 1997.

2. JOBIM, José Luís. Machado de Assis: novas perspectivas sobre a obra e o autor, no centenário de sua morte /  organizadores: Antônio Carlos Secchin, Dau Bastos, José Luís Jobim. – Rio de Janeiro: De Letras; Niterói, RJ: EdUFF, 2008.

3. MEDEIROS, Benício. O mestre da profanação. Caderno Idéias. Jornal do Brasil. 18.08.1990.

4. MURICY, Kátia. A razão cética de Machado de Assis e as questões de seu tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

5. QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. São Paulo: Cedic, 2010.

6. REIS, Carlos. O essencial sobre Eça de Queirós. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2000.

7. SARAIVA, Antônio José. História da Literatura Portuguesa. Lisboa: Coleção Saber, 1965.

8. SARAIVA, José Hermano. História concisa de Portugal. Lisboa: Publicações Europa-América, 1999.

9. SCHWARZ, Roberto. Que horas são?. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

10. SENNA, Marta de. O olhar oblíquo do bruxo. Ensaios em torno de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Nova Fr


[1]  REIS, Carlos. O essencial sobre Eça de Queirós. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2000. p. 14-15.
2 SARAIVA, Antônio José. História da Literatura Portuguesa. Lisboa: Coleção Saber, 1965. p. 155.
[3] QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. São Paulo: Cedic, 2008. p. 16.

[4] Idem. p.17.
[5] Idem p. 156-157.
[6] ASSIS, Machado. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Rovelle, 2008. p. 29-30.
[7] Idem. p. 51.
[8] Idem. p. 56.
[9] Idem. p. 61.
[10] Idem. p. 62.
[11] MEDEIROS, Benício. O mestre da profanação. Caderno Idéias. Jornal do Brasil. 18.08.1990. p. 7.
[12] JOBIM, José Luís. “Foco narrativo e memórias no romance machadiano da maturidade” In:----. Machado de Assis: novas perspectivas sobre a obra e o autor, no centenário de sua morte /  organizadores: Antônio Carlos Secchin, Dau Bastos, José Luís Jobim. – Rio de Janeiro: De Letras; Niterói, RJ: EdUFF, 2008. p. 61-62.
[13] Op. Cit. nota 6.  p. 181
[14] SCHWARZ, Roberto. “Complexo, moderno, nacional e negativo”. In: ----. Que horas são?. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 117.
[15] ASSIS, Machado de. Quincas Borba. São Paulo: Klick Editora, 1997. p. 40.
[16] Idem. p. 47.
[17] MURICY, Kátia. “O legado da desrazão”. In:----. A razão cética de Machado de Assis e as questões de seu tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 87.
[18] Op. Cit. nota 15. p. 79.
[19] Idem. p. 160.
[20] SENNA, Marta de. “Quincas Borba: uma ontologia do abandono. In: ----. O olhar oblíquo do bruxo. Ensaios em torno de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998. p. 74. 

domingo, 3 de maio de 2015

SONETO PARA A MENINA DO IMPERATOR VII



Tens no teu nome a doçura,
Tua imagem de pureza,
Ofuscando a realeza,
Deste berço de cultura.


Com a mais divina e pura,
Da mais clássica beleza,
Tu trazes plena certeza,
De inspirações futuras.


Gosto de te sublimar,
Coma minha poesia,
O teu rosto eternizar,


Que me alegra e irradia,
De ti, sempre irei lembrar,
E sentirei nostalgia.

(Jorge Eduardo Magalhães)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

ARTIGO - A CIDADE NO CONTO "A ARTE DE ANDAR NAS RUAS DO RIO DE JANEIRO" DE RUBEM FONSECA

A cidade no conto “A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro” de Rubem Fonseca

Jorge Eduardo Magalhães *



RESUMO:
Este artigo trata de uma breve análise da vida urbana no Rio de Janeiro. Podemos perceber o conflito da existência entre tipos tão diversos e identificados pelo personagem central, além disso, esta personagem corresponderá à consciência perdida entre as pessoas que ignoram a realidade a sua volta e deixam de perceber a decadência dessa sociedade cada vez mais imediatista, desumana e cruel com aqueles que fogem ao padrão de civilidade.


Palavras-chave: cidade, andarilho, escritor


 ABSTRACT:
This article is a short studying about the urban life in a great modern city, like Rio de Janeiro. We can see a conflict of existence between many characters identified by the main character, Augusto, therefore, this character will become the lost conscience among the general people that pass over the reality around themselves and don’t note the decadence of that society more and more immediate, and so cruel with those are out of civility model.




*Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Especializações Latu Sensu em Literaturas Brasileira e Portuguesa, Mestrado em Literatura Portuguesa, Professor de Língua Portuguesa da rede pública do Estado do Rio de Janeiro e do Município de São Gonçalo – RJ. E-mail: jemagalhaes@yahoo.com.br

1. Introdução
            Este artigo visa a enfocar a cidade do Rio de Janeiro não só em sua geografia, ou nos seus prédios, como também nos seus habitantes caracterizados no conto de Rubem Fonseca. Tais personagens são vistos como partes integrantes da cidade, assim como toda a sua arquitetura e geografia.
            O conto “A arte de andar pelas ruas do Rio de Janeiro”, de Rubem Fonseca, focaliza o centro da cidade com todo o esplendor de sua arquitetura e suas progressivas transformações; o texto procura também caracterizar os seus habitantes como personagens caricatos e típicos do nosso cotidiano, principalmente os que andam pela noite como mendigos, prostitutas, gigolôs, pichadores e até evangélicos fanáticos, membros da sociedade carioca.
            A partir de suas observações, o personagem Augusto Machado procura analisar de forma crítica a decadência cultural na cidade do Rio de Janeiro, tendo como exemplo desse aspecto o fato dos antigos e tradicionais cinemas, que eram freqüentados pela sociedade do Rio de Janeiro, entrarem em decadência e os seus prédios serem utilizados por evangélicos como templos de oração.
            Todos os personagens do conto, desde o fanático pastor que jura ter visto o demônio, até os demais personagens que rondam pela noite do centro carioca, como Augusto, o protagonista, e a prostituta, também são bastante caracterizados e estão ambientados com os principais pontos da cidade, como se aqueles locais fossem seus habitats naturais.
            Através das vivências de Augusto, o personagem que anda pela cidade durante a noite sob o pretexto de escrever um livro sobre a arte de andar nas ruas do Rio, o autor nos mostra um outro lado decadente da cidade de uma forma bem crua e realista, um lado desprovido de qualquer espécie de beleza.
2. A cidade e seus aspectos
            As andanças de Augusto e a sua ânsia de escrever detalhadamente sobre a cidade do Rio de Janeiro, mais precisamente o centro da cidade, fazem com que o narrador-escritor, através da trajetória e experiências desse personagem, descreva minuciosamente a cidade em todos os seus aspectos.
            Esta descrição mencionada pode até ser comparada à pintura de paisagens que retratam e desvendam os mistérios dessa cidade que só mesmo um andarilho e dedicado à arte de andar nas ruas, atento como Augusto, pode notar; e que o transeunte comum, em sua pressa habitual do dia a dia dos grandes centros urbanos, não consegue observar, pois não percebe as particularidades da cidade onde vive.
            Observemos esta afirmação de Renato Cordeiro Gomes:

Augusto, o andarilho-escritor, tem a intenção de resgatar essa memória através do livro que escreve. Anda para escrever e restaurar a cidade pela letra. Sua escrita combaterá uma perversão com outra. Busca uma arte de andar pelas ruas do centro, atividade insólita dos tempos pós-modernos. Não é o andar apressado do mundo do trabalho que se localiza no centro (...)[1]

           
O “andarilho-personagem-escritor” Augusto, justamente para poder observar e enfocar melhor todos esses minuciosos detalhes, prefere fazer suas caminhadas durante a noite, quando consegue ficar longe da agitação diurna e tem contato com habitantes até então anônimos para a maioria das pessoas que transitam pelas ruas apenas em horário comercial.
            A princípio o narrador fala um pouco da história desse centro da cidade abandonado e decadente, onde antigamente a maioria dos comerciantes moravam com as suas famílias nos sobrados em cima de suas lojas, inclusive no sobrado em cima da chapelaria onde mora Augusto; mas com a debandada das famílias para os bairros da zona sul, quase ninguém mais morava no centro.
            Observemos este trecho do conto:
O primeiro dono do prédio da chapelaria morou lá com a família há muitos anos atrás. Seus descendentes foram dos poucos comerciantes que continuaram morando no centro da cidade depois da grande debandada para os bairros, principalmente para a zona sul. Desde os anos 40 quase ninguém morava mais nos sobrados das principais ruas do centro (...)[2]
         

            O autor não só descreve a cidade e suas ruas, como também fala um pouco da história delas.
3. Os anônimos habitantes da cidade oculta
            Todos os personagens que aparecem neste conto de Rubem Fonseca, inclusive Augusto, o personagem-andarilho-escritor, cujo seu verdadeiro nome é Epifânio, são, na verdade, estereótipos existentes em nossa sociedade, que habitam não só a cidade do Rio de Janeiro, mas qualquer grande centro urbano no mundo, o que caracteriza a universalidade da obra.
            Mendigos, prostitutas analfabetas, gigolôs e jovens grafiteiros que picham prédios históricos – como por exemplo, o Teatro Municipal, que no texto é pichado por adolescente do Cachambi, (um bairro do subúrbio) e ainda por cima picha com erro de ortografia – ou seja, personagens ignorados e rejeitados pela sociedade, mas que são sempre observados por Augusto.
            É de Renato Cordeiro esta afirmação:


A narrativa dissemina, pelos percursos de Augusto, cenas que mimetizam a violência urbana proliferante com que convivemos, entre assustados e indiferentes, para revelar o estado de abandono e miserabilização da antiga Cidade Maravilhosa. O centro de uma perdida cidade cordial e malandra é agora povoado de mendigos, prostitutas decadentes, grafiteiros, pivetes, assaltantes, camelôs, sem-teto, que a cidade em crise produz, segrega e expele como dejetos (...)[3]


            Augusto, ou Epifânio, trabalhava na companhia de água e esgotos até ganhar um prêmio e ter condições de largar o seu emprego para poder se dedicar apenas ao livro que estava escrevendo sobre a arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro, título do conto de Rubem Fonseca.
O escritor-personagem já pensava há tempos em viver só de escrever, mas um amigo, assim como ele, escritor lhe disse que era obsceno viver só de escrever e que era melhor continuar trabalhando na Companhia de Águas e Esgotos para manter o seu sustento.
            Para facilitar o objetivo de seu projeto literário e poder estar mais próximo de seu material de pesquisa, Augusto decidi morar na rua Sete de Setembro, e durante a noite anda por todo o centro da cidade do Rio de Janeiro. É nessas suas andanças que o andarilho-escritor entra em contato com os mais variados personagens ocultos existentes em nossa sociedade.
            Seu contato com esses personagens se dá de forma espontânea, ou seja, se dá de acordo com o desenrolar do conto, no qual Augusto percorre as principais ruas do centro e se depara com esses tipos excluídos e marginalizados tão comuns na nossa sociedade contemporânea.
            O seu contato com Kelly aconteceu devido ao hábito de Augusto de ensinar as prostitutas a ler pelo seu método infalível.
            Quanto ao gigolô de Kelly e ao pastor da Igreja do Jesus Salvador das Almas, o texto não deixa claro o porquê do primeiro ficar assustado com a presença de Augusto e o segundo associar a sua figura ao demônio.
            O conto descreve uma violência bem diferente da que é habitual em outros contos de Rubem Fonseca, os quais mostram uma violência bem explícita, com assassinatos e crimes de uma maneira geral. Em “A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro”, o autor retrata uma violência de caráter social por meio da qual a solidão da cidade grande e a miséria castigam o ser humano.
A degradação, o abandono e a decadência cultural da cidade, também fazem parte desse contexto da violência urbana, muitas vezes problemas que estão diante de todos, mas passam praticamente imperceptíveis por seus habitantes devido à correria do dia a dia dos grandes centros urbanos.
            É de Alfredo Bosi esta afirmação:

Há os que submetem percepções e lembranças à luz da análise materialista clássica, dissecando os motivos (em geral perversos) dos comportamentos de seus personagens que ainda trazem a marca de tipos sociais. É o caso de Rubem Fonseca (...)[4]

           
A violência descrita no texto tem como responsável a própria sociedade e o caos dos centros urbanos desvendados pelo andarilho e escritor Augusto, que presencia em seus passeios noturnos tal realidade.
 4. O flaneur carioca
            A grande questão do séc. XX é o dilaceramento do tempo que dilacera a alma do homem, e esse mesmo homem descobre que é capaz de criar um personagem que reflete, concretiza a representação da vida humana a partir de um projeto em que se contempla a temporalidade.  
            Augusto será esse personagem que em suas caminhadas pela cidade resgata a imagem do flâneur – o ser que observa o mundo que o cerca de maneira real e descritiva, comum na literatura do séc. XIX, vê a rua como seu lar e desvenda aos olhos do leitor os diversos tipos humanos deste universo – o flâneur é uma espécie de resistência de não ser massificado, que consegue construir, no imaginário, a partir de uma palavra, o caráter de um transeunte, ele se apropria dessa realidade para depois recusá-la.

(...) Seu plano naquele dia é ficar entre as árvores até a hora de fechar e quando o guarda começar a apitar ele se esconderá na gruta; (...) Entre as árvores não sente irritação, nem fome, nem dor de cabeça. Imóveis, enfiadas na terra, vivendo em silêncio, indulgentes com o vento e os passarinhos, indiferentes aos próprios inimigos, ali estão elas, as árvores, em volta de Augusto, e enchem sua cabeça de um gás perfumado e invisível que ele sente, e que transmite tal leveza ao seu corpo que se ele tivesse a pretensão, e a vontade arrogante, poderia até mesmo voar.[5]

           
Em suas andanças, o flâneur carioca descreve tipos caricatos que representam uma decadência real da sociedade, como o personagem João, cujo fracasso evidencia o descaso geral pela arte e pela cultura, mas Augusto não se entrega, ao contrário de João, faz um jogo entre distância e proximidade, entra na realidade, apropria-se dela e consegue manter sua individualidade.
            Observe a seguir o trecho do conto em que percebemos o seu jogo entre o aproximar-se e o distanciar-se:

Augusto vai até a Ramalho Ortigão, passa ao lado da Igreja de São Francisco e entra na rua do Teatro, onde agora há um novo ponto de jogo de bicho, um sujeito sentado num banco escolar anotando num bloco as apostas dos pobres que não perderam a esperança, e eles devem ser muitos, os miseráveis que não perderam a fé, pois cada vez há mais pontos de jogo espalhados pela cidade.[6]


            Mais adiante vamos perceber que o próprio Augusto, apesar de pretender o distanciamento para melhor concluir o seu projeto de escrever um romance, também sente-se afetado pelo mundo que o cerca e o isolamento surge como uma espécie de defesa natural do ser humano. Ao isolar-se do mundo aparente, entra em contato com os ratos e morcegos, a umidade e a escuridão das grutas, as árvores e os mendigos, tudo junto num mundo a parte, tão perto e tão distante da realidade. Então, Augusto, o escritor-andarilho, assemelha-se aos demais tipos que descreve, também ele é um dos “miseráveis que não perderam a fé”, também ele para conseguir ser um andarilho precisou apostar e ganhar um prêmio, mas com uma diferença, a total consciência da realidade a sua volta.
            Dessa consciência advém, sem dúvida, um mal-estar implícito em suas observações, em seu convívio em sociedade, em suas relações pessoais, e em seu estar no mundo. Augusto se aproveita desse mal-estar para fazer sua crítica social e para expurgar a dor da sua existência.
            Veja esta afirmativa de Freud:

Contra o sofrimento que possa advir dos relacionamentos humanos, a defesa mais imediata é o isolamento voluntário, o manter-se à distância das outras pessoas. A felicidade passível de ser conseguida através desse método é, como vemos, a felicidade da quietude.[7]


            Assim, como diz para si o personagem, “solvitur ambulando”, o nosso flâneur termina o conto justamente à beira do cais do porto da cidade do Rio de Janeiro, onde as águas fedem e batem no paredão como se fossem um gemido, e o dia vai amanhecendo num domingo cinzento e sem os restaurantes que dão os restos de comida para os miseráveis.
5. Conclusão
            A descrição da cidade do Rio de Janeiro, tanto nos aspectos físico e geográfico quanto em relação aos seus habitantes, pretende sintonizar Augusto, o “escritor-andarilho-personagem” com a cidade em si.
            Augusto quer resgatar alguma coisa nesta cidade perdida, e tal tentativa faz com que Augusto escreva suas observações no sobrado sempre depois de suas exaustivas andanças noturnas.
            Observemos esta afirmação de Renato Cordeiro Gomes:

[Augusto] procura, portanto, estabelecer uma religação com a cidade, a partir do centro. Sobre este lugar de origem do próprio personagem e do Rio, será o capítulo inaugural do livro. Quer fazer-se um com a cidade, comungá-la.[8]


            O centro da cidade do Rio de Janeiro não mais uma área residencial, mas simplesmente um miolo comercial com o qual Augusto tanto se identifica e está tão familiarizado.


5. Bibliografia
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Editora Cultrix,      
 1994.  

FONSECA, Rubem. Romance negro e outras histórias. São Paulo: Companhia das              
 Letras, 1992.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1997.

GOMES, Renato Cordeiro. Todas as cidades, a cidade: literatura e experiência urbana. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

HAUSER, Arnold. História social da literatura e da arte. São Paulo: Editora Mestre Jou. s/d

LIMA, Luiz Costa. Sociedade e discurso ficcional / Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro:    Guanabara, 1986.

SOUZA, Roberto Acízelo. Teoria da literatura. São Paulo: Editora Ática, 1991.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1997.









           
           

           










[1] GOMES, Renato Cordeiro. Todas as cidades, a cidade: literatura e experiência urbana. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p.151.
[2] FONSECA, Rubem. A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro. In---- Romance Negro e outras histórias. São Paulo: Companhia das Letras,1992. p. 16.
[3] Op. Cit. nota 1. p. 150.
[4] BOSI, Alfredo. A ficção entre os anos 70 e 90: alguns pontos de referência. In---- História concisa da   literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. p. 436.
[5] Op. Cit. Nota 2. p.27.
[6] Op. Cit. Nota 2. p.23.
[7] FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de  Janeiro: Imago Ed., 1997. p. 26.
[8] Op. Cit. nota 1. p. 152.